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Trocando Ouro por Espelhinho

Autor: Eduardo R. de Marigny (Psicólogo)

Durante minha experiência no atendimento em consultório como psicoterapeuta, observei uma mudança significativa nas queixas e crises apresentadas pela maioria das pessoas. O stress , a depressão e a dificuldade de manter momentos de lazer e convívio social passaram a ser temas constantes. Pessoas que trabalhavam em empresas públicas que foram privatizadas começaram a ser protagonistas de toda uma mudança e insegurança que instalou-se no Brasil.

Fazendo um pequeno retrocesso até a época da ditadura militar, o povo vivia momentos de infantilização onde o Presidente (o Pai todo poderoso, autoritário e punidor) dizia o que deveria ser feito e como todos deveriam comportar-se, favorecendo um processo capitalista e condenando a democracia e o comunismo, isto é, não existiam desejos individuais, o povo era uma massa obediente aos desejos de um ditador que mantinha segundo Freud uma relação objetal de prazer alimentado por uma ilusão de poder sobre seu povo.

Ser humano é ser falho e este grande pai começou a deixar escapar de seu controle problemas sociais e humanitários que começaram a comprometer sua imagem tão poderosa e perfeita. Ser objeto de realização dos desejos também é temporário, a exemplo da infância, chega um dia a adolescência com suas questões, rebeldia e desejo de liberdade.

O povo, num processo natural de desenvolvimento, foi amadurecendo da fase infantil e obediente, para a fase adolescente e questionadora, com movimentos de greve e pleiteando a participação nas decisões importantes para o país, exigindo as eleições diretas de seus governantes. O movimento democrático estabeleceu-se com a disputa aberta entre os capitalistas e os comunistas, que em meu modo simbólico de ver representam: o comunismo de Marx a grande mãe que deseja a todos os filhos oportunidades iguais, dividindo e mantendo todos satisfeitos e o Capitalismo representando o grande pai machista que dirige suas atenções aos filhos mais espertos, que disputam e se dão bem, não importando como e o que fazem para vencer.

Como todo adolescente necessita de um ídolo para espelhar-se e alimentar sua onipotência juvenil, momento que acredita que sabe e pode tudo, governantes com perfis psicopáticos começaram a desfilar com pose de políticos que elevariam todos à posição de primeiro mundo. ?Eu sou Brasileiro mas falo com todos num bom Inglês, piloto aviões, jet-ski e sei o que é morar bem, comer bem, por onde viajar... e vocês vão financiar.?

Tirar todo tipo de vantagem passou então ser a regra, numa dinâmica adolescente que acredita que só ele é capaz de saber o que realmente acontece com aqueles que detém o poder, como aquele adolescente que se esconde no banheiro para fumar e acredita que abrindo a janela e deixando a fumaça sair, ninguém irá perceber que ele fumou escondido. Passaram a se formar quadrilhas saqueadoras do patrimônio público e do trabalhador que cada vez mais passou a ser explorado, através de propinas e impostos abusivos. Como promessa, o reconhecimento e ingresso livre ao mercado mundial.

O adolescente quer viver a vida, o prazer é primordial, status é o reconhecimento do poder, então o capitalismo voraz que troca afeto por objeto encaixou-se perfeitamente, sendo financiada por antigos países colonizadores, que desejavam voltar à terra das riquezas naturais e do povo acolhedor e imaturo. O Brasil mesmo na ditadura desenvolveu-se investindo em seus minérios, energia, comunicação e passou a ser reconhecido por seu potencial natural, mas para administrar o crescimento igualitário, com respeito ao povo e a natureza é preciso muita maturidade. Mostramos nosso potencial e também incompetência nos cuidados com o povo. Como um povo, que foi estruturado sobre valores católicos, poderia seguir modelos de um povo protestante que acredita na riqueza para a estabilidade de uma nação?

Estabeleceu-se então o conflito, que na adolescência já é suficiente no processo de transição para a fase adulta. Qual a melhor saída para um conflito ? Bem, temos a mais difícil que é a maturidade,mas temos também a mais fácil que é ?a fantasia? . Nossa moeda passou a valer igual e até mais que a de muitos países desenvolvidos,agora nós podemos tudo!

Quem pode tudo em um país de tanta desigualdade, que não privilegia a educação, a saúde e a alimentação tão farta, mantendo coronéis poderosos vivendo da miséria e exploração de crianças, mulheres e analfabetos? Verbas e recursos naturais de sobrevivência de um povo são desviados para proveito próprio, aumentando a cada dia as grandes diferenças sociais e econômicas.

Enquanto o salão está em festa, os ratos se organizam no porão.

Todo financiamento tem uma cobrança, com juros e correções irreais e impagáveis, então começou-se a pagá-los. Empresas bem estabelecidas e com alta lucratividade passaram a dar prejuízo, e por coincidência escolhidas para privatização e oferecidas aos financiadores e antigos colonizadores.

Em entrevista a um repórter brasileiro, o presidente mundial das energias, um canadense estabelecido em Londres, declarou que um povo em desenvolvimento não pode privatizar empresas de energias, de comunicações, de riquezas naturais que são a moeda forte de um país que deseja negociar seu crescimento com o restante dos outros países. Será que ele está errado ?

Porque será que partidos e políticos profissionais, gastam milhões para serem eleitos ? ou pelo menos ocuparem um cargo de direção em uma empresa pública ?

Quem na adolescência não conheceu o ?bom vivam, o sabe tudo? que propõe situações que quando nos dávamos conta eram ótimas, apenas para ?ele? e seus correligionários.

Os EUA em constante conflito com o Oriente deseja importar mais petróleo do Brasil, eles acreditam que podemos abastecer boa parte de suas necessidades e também interessa-se em ?cuidar? da nossa Mata Amazônica. A Espanha controla boa parte das telecomunicações na América Latina e interessou-se pela nossa, a empresa de minérios e de energia elétrica coincidentemente tiveram interessados. O que aconteceu com estas empresas que tiveram grande desenvolvimento, eram lucrativas e proporcionavam empregos com boa qualidade de vida aos Brasileiros, que nossos governantes decidiram que não eram mais viáveis e que deveriam ser administradas por nossos colonizadores?

Há 500 anos, Espanhóis , Portugueses e outros colonizadores ?trocavam ouro por espelhinhos? e escravizavam nossos índios, apossando-se do país, ditando regras e mudando os costumes. Nossos índios foram reduzidos à pequenas malocas, sobrevivem na miséria e perderam seus valores culturais. Os colonizadores voltaram e com a mesma voracidade, hoje pessoas que trabalhavam de 6 a 8 horas, e procuravam manter uma qualidade de vida social, familiar e afetiva, hoje com medo de perderem o emprego como seus milhares de colegas demitidos, trabalham de 10 a 12 horas por dia, violentam-se e estão perdendo sua auto-estima. A grande culpada é a globalização, a competitividade voraz é o argumento para aqueles que adolescentes desejam tornar-se adultos, haja energia para viver tanta competitividade ! Não é o que acontece com aqueles brasileiros que vivem em outros países e acreditam em seu potencial profissional, engajados em grandes empresas são valorizados como qualquer profissional daquele país e respeitados em seus direitos e qualidade de vida.

Porque aqui é diferente ? Isto não acontece aqui no Brasil ? A globalização é seletiva. Na época da infantilização ou melhor, da ditadura, o futebol e o carnaval distraiam o povo e direcionavam as atenções, acalmando-se os ânimos, hoje na democracia o adolescente procura o sexo, mas tem a Aids como vilã, foge para as drogas que anestesia e incapacita o povo, alimentando corruptos e marginais, ou liberam suas agressividades, sendo intolerantes, individualistas e aumentando a audiência de programas que mostram conflitos pessoais e familiares de forma sádica e perversa.

Como no passado, algumas aldeias que viviam próximas à vulcões ativos, de tempo em tempo escolhia-se uma pessoa para ser sacrificada, jogada na boca do vulcão, aliviava a tensão de toda a aldeia, que acreditava que com este sacrifício humano o vulcão ficaria satisfeito e não destruiria a aldeia. Estamos observando alguns governantes sendo sacrificados, mas são poucos em relação ao estrago que foi feito em nosso grande país e ao nosso sofrido povo.

O silêncio em tempos de ditadura era a regra de sobrevivência, hoje estamos em um país democrático, não podemos acreditar que apenas um presidente seja capaz de solucionar os problemas do nosso povo e país, precisamos rever nossos valores e potencial humano para ir em busca do que é nosso, exigir respeito e uma vida saudável. O povo é quem pode cuidar de um país tão grande e rico, esta consciência e valorização deve começar em casa, ensinando aos nossos filhos valores nobres e duradouros, criando intimidade e trocando afeto, favorecendo uma maturidade real, precisamos de uma ?rematrização? na forma de relacionar-se, aprender a tratar afetivamente o outro sem infantilizá-lo. Valorizou-se por muito tempo o Q.I. ( coeficiente de inteligência ) , hoje sabemos que existem pessoas muito inteligentes mas igualmente imaturas, Q.E. ( coeficiente emocional ) é a descoberta mais valiosa, onde o importante é a maturidade para enfrentar as situações de vida e estabelecer vínculos saudáveis, com os outros e consigo mesmo, aprendo a se conhecer e se cuidar.

Podemos avançar de adolescentes para adolescentes-adultos e chegar posteriormente à maturidade, que não está vinculada à idade das pessoas, mas sim a como elas administram suas vidas e seus relacionamentos. Estamos numa fase muito individualista, onde as pessoas e vínculos são superficiais e descartáveis e até os imóveis atualmente construídos privilegiam o isolamento em equipadas suítes, e toda sorte de eletrodomésticos que facilitam o ficar em casa. Aproveitemos este movimento não para fugir dos conflitos e alimentarmos ainda mais a intolerância nos relacionamentos, mas para rever nossos valores, fortalecer a posição como cidadão e a auto-estima, essencial para encontrar motivação e felicidade na vida, resgatando o colorido e o calor dos relacionamentos.

Nosso país é rico naturalmente, temos um nordeste que além de sua rica cultura possui um litoral que pode ser auto-suficiente através de um turismo bem estruturado, temos uma mata invejável com recursos medicamentosos e suas riquezas naturais, um grande celeiro para criações saudáveis e terra onde tudo que se planta cresce forte e em abundância, um povo criativo, esportista, trabalhador e espontâneo. Precisamos sim de alguns ?espelhinhos? para que identifiquemos nosso grande potencial e impor respeito aos colonizadores e governantes que violentam e subestimam nosso povo e modo de viver.

Acredito que num futuro próximo estarei negociando de igual para igual, patrão e empregado, o melhor horário e forma de desenvolver seu trabalho. Sem o medo infantil da rejeição e punição. Sendo bem remunerado. Mas, para que isto torne-se realidade a família é seu ponto de partida, apesar de alguns acreditarem na falência da instituição familiar.

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